segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O dia em que todos os humanos morreram

Pois é, eu estava ali, foi morbidamente incrível, me encontrava numa padaria assistindo a um maravilhoso programa de TV.
Acho que foi morte súbita pois meu melhor amigo me contou o caso de um jogador de futebol, ele também vivia reclamando de dívidas de abandono da falta do fraterno, da mãe do avô, do aquecimento global, do Bush, do Lula, nunca vi ele mover uma palha, só falava, coisa comum entre os humanos, vai entender esse povo.
Era um quase silêncio, somente alguns motores de carro que ainda teimavam em funcionar, o resto não existia, os faróis de trânsito apagados e nenhuma luz acesa, mas o sol iluminava aquele perímetro que meus olhos alcançavam com tons de azul e magenta, aos poucos foi se transformando em silêncio, aquilo era de uma beleza estonteante.
Eram corpos e mais corpos dentro dos veículos, em cada esquina, nos pontos de ônibus ...
Me encontrava próximo ao Metrô Vila Madalena, resolvi caminhar em direção à Av. Paulista, perdi a conta dos cadáveres. Eram crianças adultos velhos, todos paralizados, alguns com expressão de horror, outros com expressão de extase, o silêncio suavizava tudo, de repente o silêncio ia desaparecendo e logo ouvia-se uns pássaros cantando numa alegria mórbida, pombos comendo grãos dos supermercados e espalhando-os por todos os caminhos. Pareciam semeadores.
Dei uma pausa e bebi um pouco de água, avistei abaixo de uma ponte uns moleques de rua mortos que pareciam Deuses Mitológicos. Ali encontrei uma amiga fiel esperando algum movimento de seus amigos, fui até ela e perguntei seu nome, ela se chamava Fusarca, um nome que nunca tinha escutado e a convenci em me acompanhar.
Chegamos à Paulista e fomos até o Parque Trianon. Ali não havia silêncio, mas sim um ruído ensurdecedor que nunca tinha ouvido antes, eram maritacas, papagaios, macacos galinhas, patos e mais alguma coisa que não conseguia distinguir.
Aquele parque agora pertencia a todos nós, dei uma marcada no território e convidei Fusarca para me acompanhar a assistir meu programa predileto.



Na saída vimos como a natureza se encarregaria da limpeza, haviam por ali milhares de ratos e dezenas de urubus, dividindo toda aquela carniça abundante, tudo na mais perfeita harmonia, larvas poeira, chuva, sol frio, logo as sementes que os pombos deixavam cair brotariam naquela terra fértil que outrora fora raça humana e caminhava por aquele mesmo terreno. Voltei para a Padoca com minha nova amiga e quando cheguei lá, não existia mais aquela forma linda, cheirosa e suculenta, restavam apenas pedaços de carvão pequenos e mal cheirosos, comemos pedaços generosos de parma e nos acomodamos por ali mesmo para um descanso.





Conto - Hélio Bartsch
Ilustração - Juan Castro






3 comentários:

Julia disse...

É a força da grama que refaz coisas que deixaram de ser belas.

nb disse...

Gostei muito, vejo aí muita inspiração e os neurônios do coração em movimentação intensa.
Para aquele que ve o mundo em todas as formas,
um forte abraço e parabens,
de mim...
nb

leopoldo ponce disse...

o artista sobrevivendo ao fim do mundo através da poesia. muito legal.
aliás, fim do mundo uma ova.
fim do gênero humano.
gostaria de visualizar mais detalhes de como tudo aconteceu.
um abraço
leo